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10/10/2017 às 01h15

Recolhimento noturno

A surpreendente decisão do Supremo que obrigou o senador Aécio Neves a se recolher toda noite fará enorme bem a ele, porque lhe dá alguns dias para se aconselhar com o espírito de seu tio Tancredo, e a nós também, para avaliarmos esse novo capítulo provocado pelas manhas e artimanhas do político mineiro processado. Além do mais, essa pena esquisita beneficiará a nação inteira, pois, como disse alguém, o Brasil progride à noite, enquanto os políticos estão dormindo. 

Mas, falando sério, penso que se pode tirar bom proveito de um recolhimento noturno, seja ele imposto ou espontâneo. Vive feliz quem sabe explorar as virtudes da noite, porque, entre o ocaso e o nascer do sol, há mais vida do que a gente imagina. A noite pode ser um precioso manual com lições de arte, ciência, filosofia, religião e, no caso do senador recluso, também de política. O silêncio da noite pode lhe soprar ideias melhores que as elaboradas por ele, à luz do dia. 

Essa enciclopédia de saberes básicos, antes do sono restaurador, apresenta-se ainda como um prefácio imperdível, para algumas horas de curtição da intimidade doméstica. Nessa distingo três valores ao alcance de todos: ler, informar-se e distrair-se. Romance, biografia, ficção, tudo pode abrir brechas de visão mais ampla do mundo e do próprio eu, num espaço de leitura de bons autores, nos mais variados temas. E variar é recomendado já há muito tempo pela proverbial advertência: ""Eu temo o homem de um livro só"". 

Em casa, cumprida a jornada de trabalho, também cabe um olhar para trás, a ver o que rolou de notícia, na cidade, no País e no mundo, enquanto você estava no batente. Sobram informações na televisão, boas e tristes, verdadeiras e falsas, porém com controle remoto ativo e esperto, é possível, além de escapar da propaganda, garimpar algumas lascas de pura verdade, sem contaminação ideológica. Mas esse tempinho pré-sono pode ainda ser mais livre e prazeroso se substituir a concentração pela distração. Pode ser um papo leve, um bom filme, dominó, dama, baralho, um simples passatempo descomprometido, em família. 

Voltando agora, diretamente, para o senador Aécio, não sei que tipo de vida ele estará levando neste seu recolhimento domiciliar forçado. Presumo pouquíssima distração, nenhuma leitura mais séria e imensa procura de informações. E bastante preocupado, porque depois do crepúsculo vem a noite e nela todos os gatos são pardos, ou seja, os companheiros de luta desaparecem. No escuro da sua medida cautelar, só conseguirá encontrar algum amigo de todas as horas, mediante o inseparável celular. Quem antes gozava noitadas de política ou de bares, agora, da noite para o dia, se vê apenado às suas quatro paredes, todos os dias, desde o pôr do sol. 

O que se deseja é que, acordado pelos raios solares de todas as manhãs, ele tenha dias de plena luz, para rever seus passos, extraindo do isolamento de tantas noites uma lição de vida política diferente, rigorosamente ética. No fundo, é disso também que toda a sociedade brasileira precisa. Decepcionada com os três Poderes, que use a luz do dia e o silêncio da noite, para pensar e criar um País diferente. 

*Mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma

 

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