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Nacional

26/8/2017 às 02h52

'Tinha esperança de salvar', diz socorrista do Samu que tentou reanimar bebê de 6 meses após lancha virar na Bahia

Imagem do socorrista correndo para tentar salvar a criança marcou o dia da tragédia, ocorrida na quinta-feira (24), em Mar Grande, que fica em Vera Cruz.

Socorrista do Samu leva um bebê no colo após uma embarcação naufragar em Mar Grande, na Baía de Todos os Santos, na Bahia (Foto: Xando Pereira/Agência A Tarde/Estadão Conteúdo) Socorrista do Samu leva um bebê no colo após uma embarcação naufragar em Mar Grande, na Baía de Todos os Santos, na Bahia (Foto: Xando Pereira/Agência A Tarde/Estadão Conteúdo)

"Eu tinha a esperança de salvar [o bebê de 6 meses], porque é um acidente diferente, é na água, então, a chance de sobrevida era maior. A gente fica com o sentimento de, não é de derrota, mas triste, porque é uma vida que se vai". Esse é o relato de Jaeliton Assis, socorrista do Samu que protagonizou uma das cenas mais comoventes registradas durante o socorro às vítimas da tragédia que deixou, ao menos, 18 pessoas mortas após uma embarcação virar em Mar Grande, município Vera Cruz, na região metropolitana de Salvador.

Nas imagens, Jaeliton aparece tentando reanimar o pequeno Davi Gabriel Monteiro ainda dentro de uma lancha. Depois, ele aparece correndo com a criança nos braços para fazer mais uma tentativa de salvar a vida da vítima, desta vez em uma ambulância, com a ajuda de outros colegas.

Jaeliton, que tem 51 anos e trabalha como socorrista há 35 anos, atua há 12 no Samu. Para ele, o trabalho de resgate às vítimas do acidente com a embarcação foi diferente de muitos que já participou.

 

"Eu tenho três filhas. Nessa hora vem na nossa mente que poderia ser um membro da nossa família", disse.

 

O caso aconteceu na manhã de quinta-feira (24), na Baía de Todos-os-Santos, pouco depois da lancha Cavalo Marinho I deixar o Terminal Marítimo de Mar Grande, com destino a Salvador. O bebê Davi Gabriel foi enterrado na manhã desta sexta-feira (25), em Mar Grande, sob forte comoção. A criança viajava com a mãe, a irmã, de 5 anos, e avó, que sobreviveram ao acidente.

A lancha Cavalo Marinho I virou por volta das 6h30 de quinta-feira, cerca de 10 minutos após deixar o Terminal Marítimo de Mar Grande, que fica no município de Vera Cruz, localizado na Ilha de Itaparica. A embarcação tinha como destino Salvador e estava a aproximadamente 200 metros da costa quando o acidente aconteceu. A viagem dura aproximadamente 45 minutos.

A embarcação tinha 120 pessoas a bordo, sendo 116 passageiros e 4 tripulantes, que sobreviveram ao acidente e devem ser ouvidos pela polícia. A lancha tinha capacidade para 160 pessoas.

As 18 pessoas que morreram no acidente já foram identificadas. São 13 mulheres, dois homens e três crianças. Os corpos foram periciados no Departamento de Perícia Técnica (DPT) de Salvador e na unidade de Santo Antônio de Jesus. As buscas por possíveis desaparecidos foram retomadas na manhã desta sexta.

A Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) informou que 89 pessoas haviam sido resgatadas com vida. Dentre os sobreviventes resgatados, 70 foram na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), em Mar Grande; 15 foram para o Hospital Geral de Itaparica; dois estiveram no Hospital do Subúrbio e dois no Hospital Geral do Estado (HGE), ambos em Salvador.

Em nota, a CL Transportes, dona da embarcação Cavalo Marinho I, lamentou a tragédia e se solidarizou com as vítimas do acidente, além de reforçar que a embarcação estava regular, com todas as vistorias em dia. A empresa informou, ainda, que presta assistência às famílias das vítimas com uma equipe formada por médicos, pscólogos e assistentes sociais.

 

 

Investigações

 

 
Lancha ficou presa nos arrecifes próximo ao local onde virou (Foto: Afonso Santana/Arquivo pessoal)

Lancha ficou presa nos arrecifes próximo ao local onde virou (Foto: Afonso Santana/Arquivo pessoal)

O mau tempo e a desestabilização da lancha podem ter provocado o acidente com a embarcação. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a velocidade do vento, que normalmente é de 7 km/h, era de cerca de 31km/h no local do acidente, quando a embarcação virou.

Conforme relato de sobreviventes, por causa da chuva forte e do vento, os passageiros da lancha passaram para um lado só da embarcação, o que teria provocado a desestabilização da lancha, que virou após ser atingida por uma onda.

A Marinha informou que vai ouvir os sobreviventes durante as investigações para apurar se isso provocou o acidente. De acordo com a Capitania dos Portos, as causas, circunstâncias e responsabilidades do acidente já começaram a ser apuradas. O inquérito deve ser concluído em 90 dias.

"Informação do que efetivamente ocorreu nós só teremos ao final do inquérito que está sendo instaurado pela Marinha para apurar o acidente. Nós ouviremos testemunhas, a embarcação vai passar por uma perícia e, ao final do inquérito, que tem prazo de conclusão de 90 dias, é que nós teremos um quadro efetivo”, afirmou o comandante Flávio Almeida, assessor de relações institucionais da Marinha na Bahia.

Ainda segundo o comandante Flávio, o Centro de Hidrografia da Marinha emite boletins meteorológicos duas vezes por dia, sobre as condições do mar, altura das ondas, velocidade dos ventos. O informativo é enviado para a imprensa, marinas e colônias de pescadores. Mas, conforme a Capitania dos Portos, a orientação é que os navegantes consultem as condições do mar antes de sair.

 

Quando há aviso de mau tempo, esclarece a Marinha, o responsável pela embarcação é quem decide se tem condições ou não de navegar. Na quinta-feira, quando ocorreu o acidente com a lancha, não havia alerta de mau tempo na área de todo litoral baiano, informou o comandante Flávio Almeida.

Em nota, o Ministério Público do Estado da Bahia informou que um promotor de Justiça será designado para acompanhar de perto a apuração dos fatos que motivaram o acidente. O MP-BA disse ainda que a condição de "precariedade" do serviço de transporte realizado pelas embarcações foi alertada há mais de dez anos pela promotoria, que propôs ações civis públicas nos anos de 2007 e 2014 sobre o caso.

Na primeira ação, o Ministério Público alertou sobre inúmeras irregularidades no transporte de passageiros pelas embarcações, que colocariam em risco, diariamente, a segurança de centenas de pessoas. Em 2014, em uma nova ação civil pública, o MP-BA solicitou a reforma dos terminais e das embarcações, a renovação dos coletes salva-vidas e outras medidas que assegurassem a saúde e segurança dos usuários. As ações propostas pelo Ministério Público ainda aguardam decisão judicial.

 
Acidente com embarcação na Bahia  aconteceu na quinta-feira (24) (Foto: Arte/G1)

Acidente com embarcação na Bahia aconteceu na quinta-feira (24) (Foto: Arte/G1)

 
Acidente ocorreu em Mar Grande, a cerca de 200 metros da costa (Foto: Rafael Alves/TV Bahia)

Acidente ocorreu em Mar Grande, a cerca de 200 metros da costa (Foto: Rafael Alves/TV Bahia)

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