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Penitenciária

20/2/2018 às 10h18

Gegê do Mangue vendia drogas na Vila Madalena, bairro boêmio de SP, antes de ser chefe de facção

Foragido e condenado por homicídios, ele foi encontrado morto na semana passada no CE. Vizinho e amigo em SP chorou ao contar ao G1 como soube da morte de criminoso; veja vídeo.

Gegê do Mangue era um dos mais procurados no site da Polícia Civil de São Paulo (Foto: Reprodução/Polícia Civil de São Paulo) Gegê do Mangue era um dos mais procurados no site da Polícia Civil de São Paulo (Foto: Reprodução/Polícia Civil de São Paulo)

Antes de se tornar número 2 do Primeiro Comando da Capital (PCC) e ser morto no Ceará, Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, de 41 anos, vendia drogas para "descolados" da Vila Madalena, bairro boêmio da Zona Oeste de São Paulo.

O G1 visitou a Rua Fidalga, onde o criminoso morou, e conversou com um vizinho, que se disse amigo do chefe da facção paulista nas ruas. O motorista aposentado Israel Silva e Mendes, de 63 anos, chorou ao lembrar como soube do assassinato de Gegê (veja vídeo acima).

“Recebi [a notícia] 2 horas da manhã. Tava na televisão... Pelo amor de Deus, véio, eu não acredito numa coisa dessa”, contou Israel, que se recorda de Gegê ainda criança, vestindo a camisa do Palmeiras e empinando pipa na praça. “Desde os 3 anos. Era normal. Quando era criança era uma bela pessoa, aí depois entrou no mundo das drogas e f**** tudo”.

 

 

Infância com pipa

 

Segundo vizinhos, policiais e Ministério Público (MP), Rogério Jeremias nasceu na capital paulista e era conhecido como Gegê desde pequeno. Ele ganhou o restante do apelido, Mangue, por ter sido criado numa região de mangue na Vila Madalena, onde antigamente havia cerca de 30 casas humildes. Morou numa delas com os pais, artesãos, e mais três irmãos.

 

 

“Tinha uns pés de mangue e a aí colocou mangue”, lembrou Israel sobre o apelido de Rogério.

 

Enquanto pai e mãe costuravam almofadas para vender nas ruas, Gegê ajudava nos afazeres domésticos, era coroinha da igreja, estudava na Escola Estadual Carlos Maximiliano Pereira dos Santos, na Rua Jericó, tudo na Vila Madalena, e chegou a ser office-boy no Centro.

 
Escola onde Gegê estudou, segundo promotores (Foto: Kleber Tomaz/G1)

Escola onde Gegê estudou, segundo promotores (Foto: Kleber Tomaz/G1)

 

Adolescência com drogas

 

Segundo Israel, Gegê começou a traficar ainda na adolescência. “Eu acho que [com] uns 15 anos [de idade]”. Aos 18 anos, em 1995, ele foi preso pela primeira vez na rua onde morava por vender maconha e cocaína a frequentadores "descolados" de barzinhos da Vila Madalena.

Além do vizinho, o termo "descolados" é utilizado por promotores ouvidos pelo G1 para se referir ao perfil dos usuários que compravam drogas de Gegê, que segundo eles são pessoas extrovertidas, sociáveis e com poder aquisitivo que frequentavam a noite do bairro conhecido por sua vida boêmia.

Réu primário, ficou um ano detido até ser preso novamente por tráfico e outro crime, assassinato. Ficou 12 anos rem regime fechado, conhecendo o PCC e se aproximando das lideranças, que o ‘batizaram’ para entrar na facção.

Desde então, passou a receber ordens das lideranças e, mesmo dentro da cadeia, coordenou ações do lado de fora das grades. Em 2003, ele ascendeu na facção porque teria participado do assassinato de um juiz. Esse crime foi negado por ele, mas outros, Gegê do Mangue assumiu.

 
 
 
 
 
Chefe de facção criminosa de SP, Gegê do Mangue, é morto no Ceará

Chefe de facção criminosa de SP, Gegê do Mangue, é morto no Ceará

 

De traficante a líder morto

 

De acordo com a Promotoria, Gegê galgou outras funções depois disso até ser considerado o segundo na linha sucessória do PCC, atrás apenas de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, quando voltou às ruas. Antes, o segundo posto era ocupado por Abel Pacheco, o Vida Loka, que está preso em Natal-RN.

Gegê passou por 15 penitenciárias. A última foi a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista, de onde saiu pela porta da frente no dia 1º de fevereiro do ano passado por decisão judicial, em razão da demora no julgamento de um duplo assassinato do qual era acusado.

 
Um dos últimos organogramas do PCC mostra que Marcola continua sendo o número 1 da facção, seguido por Abel Pacheco e Gegê do Mangue entre outros (Foto: Reprodução/Ministério Público)Um dos últimos organogramas do PCC mostra que Marcola continua sendo o número 1 da facção, seguido por Abel Pacheco e Gegê do Mangue entre outros (Foto: Reprodução/Ministério Público)

Um dos últimos organogramas do PCC mostra que Marcola continua sendo o número 1 da facção, seguido por Abel Pacheco e Gegê do Mangue entre outros (Foto: Reprodução/Ministério Público)

 

A condição para ser solto foi a de se apresentar à Justiça duas semanas depois para ir a júri popular pelos crimes. Como não apareceu, foi julgado à revelia e condenado a 47 anos de prisão. Posteriormente, passou a ser considerado foragido por ter faltado ao próprio julgamento.

Até a manhã desta segunda-feira (19), Gegê figurava na lista dos mais procurados da Polícia Civil. O nome dele e a foto sumiram da página oficial da instituição na internet após a divulgação de que fora assassinado.

Gegê foi encontrado morto a tiros na última quinta-feira (15) em Aquiraz, a 30 quilômetros de Fortaleza. O corpo dele, no entanto, só foi identificado no domingo (18). Ao seu lado estava outro membro da facção criminosa paulista, Fabiano Alves de Souza, o Paca, também foragido da Justiça. Além das marcas de tiros, os cadáveres tinham marcas de tortura, com facadas nos olhos.

 
Dois corpos são encontrados em reserva indígena em Aquiraz, no Ceará (Foto: Arquivo pessoal)

Dois corpos são encontrados em reserva indígena em Aquiraz, no Ceará (Foto: Arquivo pessoal)

 

Retaliação no CE

 

A principal suspeita investigada pela polícia e apurada pelo Ministério Público é a de que Gegê e Paca tenham sido mortos pela própria facção paulista em retaliação ao assassinato de um de seus ex-membros, o preso Edilson Borges Nogueira, o Birosca, em dezembro de 2017.

Birosca era aliado de Marcola, apontado como número 1 do PCC, e que também está atrás das grades. Entre os integrantes havia a suspeita de que Gegê estivesse envolvido na morte de Birosca, assassinado na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. Birosca havia sido destituído da facção porque uma parente dele teria brigado com outras mulheres de detentos durante visita ao presídio.

 
 
Ficha de identificação civil de Paca (Foto: Reprodução)

Ficha de identificação civil de Paca (Foto: Reprodução)

 

As casas de Gegê

 

Quando faltou ao próprio júri, Gegê indicou à Justiça um endereço no qual não foi encontrado na Rua Fidalga, na Vila Madalena. Além do imóvel parcialmente abandonado, usado como garagem por vizinhos, a estrutura está em ruínas, com o primeiro andar inacabado. Ali ele não estava.

“A mãe dele morava aqui. Daqui foi pra ali. Aí destruíram tudo ali e fizeram um prédio, aí ela foi lá para Osasco”, contou Israel. De acordo com o amigo, a casa onde Gegê cresceu e morou é a vizinha. A pedido da reportagem, o caminhoneiro apontou para ela e se deixou fotografar. “Está abandonada há uns oitos anos já”.

Depois dali, Gegê morou em outro imóvel quase em frente, que foi destruído para a construção de vários apartamentos. Promotores desconfiam que Gegê tenha ficado escondido na Lapa, num condomínio de alto padrão, avaliado em R$ 1,8 milhão, que tem piscina, academia e banheira de hidromassagem.

 
Da esquerda para a direita: casa apontada por vizinho como sendo de Gegê; imóvel onde criminoso morou em seguida; e sobrado indicado por chefe de facção para encontrá-lo. Todos imóveis na Rua Fidalga, na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo (Foto: Kleber Tomaz/G1)

Da esquerda para a direita: casa apontada por vizinho como sendo de Gegê; imóvel onde criminoso morou em seguida; e sobrado indicado por chefe de facção para encontrá-lo. Todos imóveis na Rua Fidalga, na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo (Foto: Kleber Tomaz/G1)

 

 

Casado com filhos

 

Durante o período em que esteve foragido, Gegê teria ficado com a mulher, com a qual tem um casal de filhos pequenos. Segundo o vizinho, ele encontrou o casal fazendo compras num supermercado da Zona Oeste há oito semanas. "Só cumprimentaram".

Israel ainda se incomoda de quem chame Gegê de criminoso. “Pra mim de crime ele não tem nada”, enfatizou. “Isso é um tráfico. É o que ele usava. Usava droga, mas crime, não”.

“Ô meu, é meu grande amigo. Nossa. Ele para mim é um filho”, disse o vizinho. “Era assim: o que ele precisava eu dava. E o que eu precisava também, ele me dava. Dinheiro. Também se eu precisava também... dinheiro, dava pra mim”.

 
O vizinho Israel Silva e Mendes aponta para imóvel onde, segundo ele, Gegê morou com a família (Foto: Kleber Tomaz/G1)

O vizinho Israel Silva e Mendes aponta para imóvel onde, segundo ele, Gegê morou com a família (Foto: Kleber Tomaz/G1)

 

“Não fazia mal para ninguém. O mundo dele foi só as drogas”, disse Israel sobre Gegê.

 

Paca, cujo corpo foi achado junto com o de Gegê, foi beneficiado com a saída temporária na Páscoa de 2011, mas não voltou à prisão. Após as mortes de Gegê e Paca, o governo federal enviou reforço policial ao Ceará.

Segundo promotores, Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, teria assumido as principais ações criminosas do PCC nas ruas após as execuções dos dois.

 
 

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