Teve essa impressão quando viu aquela mulher de meia-idade, talvez pouco mais, que usava um calçado que lembrava o conga dos anos 60 e era de um cinza metalizado. O que primeiro lhe veio à memória, foi a série Perdidos no Espaço que ele assistia nos anos 60, em preto e branco, pois TV colorida só iria surgir nos anos 70. E devido a ser monocromática, então ele não tinha certeza se era prateado ou de outra cor, metalizada, os diversos alienígenas que apareciam em alguns episódios.
Em seguida lhe inundou os pensamentos os seus conceitos com certa rigidez a respeito de comportamento social, quer dizer, ele achava que aquele calçado não combinava com aquela mulher daquela idade. Foi uma oportunidade de se conscientizar da estupidez de alguns desses conceitos jurássicos que ainda carrega em si, pois, se a vida funcionasse como eles (seus conceitos antiquados), não estaria viajando de bicicleta pelo estado de São Paulo até completar 300 cidades visitadas, como se propôs a fazer. Porque o ciclismo se presta mais a pessoas jovens, com resistência física mais adequada para atividade dessa envergadura. Mas se contradisse quando pensou que, por outro lado… é mais difícil para uma pessoa jovem dispor de tempo para essas viagens, pois que estão em meio aos estudos em alguma faculdade ou iniciando carreira profissional, o que lhes permite tão somente um mês, ou dois, esticando com feriados, para se desligarem do mundo a que pertencem. Ao passo que pessoas mais velhas, como ele, mais de 60, presumivelmente estariam aposentadas e assim poderiam demorar-se pedalando por aí sem atrapalhar a ninguém, nem a si mesmo.
Enquanto pensava a composição do metrô entrou no trecho subterrâneo, quando ele perdeu o sinal de internet no celular, pois em Brasília é assim. Daí em diante passou a olhar furtivamente para as pessoas à sua frente ou dos lados, procurando um rosto feminino bonito com o qual pudesse se entreter, pois agora a paisagem pela janela era apenas as paredes dos tuneis com luzes passando rapidamente, entremeados com as estações – 4, antes do seu destino. Foi assim que viu uma menina bem novinha, uns 18 anos, bonitinha, que também se entretinha observando os passageiros à frente, ele incluído, vejam só. Às vezes seus olhares se cruzavam e ele sempre perdia a batalha de ver quem encara mais tempo. Nessas ocasiões costuma se intimidar, receoso que a menina em questão se sinta incomodada, situação que já lhe aconteceu…
Imerso nesses pensamentos chegou ao destino, sendo que a menina bonita descera uma estação antes. Lamentou que não tivesse uma caneta para anotar essas reflexões e transformar em crônica, mas sabia que chegando em casa conseguiria lembrar-se de tudo ou quase.
Como por exemplo, do cidadão-camelô, a quem pedira informação sobre onde ficava a Capemi e ele respondera com um sei não e, ao se afastar ouviu o tal comentando em voz alta para que ele ouvisse: – Não disse a palavra mágica, como é que vai querer saber informação??? Então ele se voltou ao tal cidadão e perguntou à queima-roupa: – Abracadabra, você sabe me dizer onde fica a Capemi? Mas agora já não interessava mais a resposta, pois visualizara a fachada do tal lugar. E o tal cidadão emudecera, talvez surpreso pela reação do inquiridor, vai se saber. E ele então disse sarcástico: – Tá vendo, nem com palavra mágica você funciona… e saiu sorrindo vitorioso.
O Setor Comercial Sul de Brasília é uma área grande onde se situam escritórios, financeiras, bancos, agências governamentais e um bocado de camelôs e muito mais viciados em todo tipo de droga, além de alguns raros policiais. Na volta, para sua surpresa e dos leitores, não é que a mulher do conga pegou o mesmo carro em que ele estava? Essas coisas acontecem. Foi assim em 1980 e alguma coisa, quando foi a São Paulo visitar seu irmão em um hospital onde sofrera uma cirurgia neurológica. O hospital fica no bairro do Belém, em cuja estação do metrô ele se preparava para descer, se dirigindo à porta ainda em movimento, quando a seu lado, surge quem? seu pai!!! que também fora visitar o irmão/filho…
*Técnico em informática e ciclista que pedalou por diversas cidades do estado de São Paulo.