O doutor Mário De Beni Arrigoni é professor livre docente da Unesp, Campus de Botucatu, onde começou a lecionar em 1995. Em 2005, a convite do reitor da universidade, tornou-se coordenador executivo do campus de Dracena da Unesp, onde foi eleito para um segundo mandato, que irá até 2013. Arrigoni, zootecnista, é um pesquisador renomado em estudos sobre nutrição de bovinos, tendo publicados dezenas de artigos e outras publicações científicas.
Por que escolheu a zootecnia como profissão? Hoje, escolheria essa profissão novamente?
Eu escolhi a zootecnia porque, em 1979, era uma profissão que já sinalizava que a produção animal precisava ser incentivada no país, então eu tinha essa visão de produção de alimentos. Hoje, sem dúvida, eu a faria de novo por entender que a formação do zootecnista é ampla e irrestrita. O mercado só mostra que precisamos ser mais criativos, arrojados e inovadores, como em todas as profissões. Vou fazer um paralelo: dentista na minha época era o que tinha de melhor em termos de formação, hoje a odonto já está saturada, a zootecnia, por outro lado, cria mais condições, pela versatilidade da profissão.
A zootecnia evoluiu nas últimas duas décadas? Como?
Muito, no aspecto biotecnológico, nos processamentos e principalmente no fator de qualidade.
Qual a importância da zootecnia para a sociedade?
Os médicos entendem da nutrição humana, mas não conhecem a origem do alimento, o zootecnista não entende das doenças humanas, mas sabe como prevenir por meio da alimentação. Então, eu acho que o fator nutricional, produzir com qualidade o alimento e dar uma oportunidade para o Brasil se destacar no agronegócio, é um dos pontos fortes da zootecnia.
A sustentabilidade é um clichê dos ambientalistas ou um conceito aplicável na produção animal? Por quê?
É um conceito que foi, sem dúvida, banalizado, utilizado muitas vezes de maneira inadequada, mas sobre o conceito “sustentável”, o zootecnista entende perfeitamente, então essa é uma profissão atual, já que essa demanda da sustentabilidade é uma área tão importante.
Sabe-se que a produção animal tem contribuído para o aumento do aquecimento global. Os zootecnistas têm meios para diminuir esse impacto ambiental?
Muito! Está em nossas mãos o manejo alimentar, antecipar a idade de abate e utilizar aditivos que podem controlar a emissão de gases. De maneira geral, a interação genótipo x ambiente é muito entendida pelo zootecnista, que pode entrar com o manejo alimentar minimizando os efeitos, tratando de dejetos e algo que não pode ser deixado de lado, a otimização de sub-produtos de indústria, que é outro fator que impacta muito no meio ambiente.
“A satisfação das necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” é o conceito mais usual de sustentabilidade. Você recentemente foi pai pela quarta vez. O que os zootecnistas podem fazer para que nossos filhos vivam num mundo com melhor qualidade ambiental? Qual deve ser a contrapartida da sociedade?
O zootecnista vai participar em um quesito fundamental, ele vai fazer um contraponto naquilo que é conservação, cuidado de um planejamento ambiental, é isso que eu quero para a minha filha, que ela possa viver em um lugar onde haja um planejamento ambiental pautado em um propósito, que é qualidade de vidas, não só da vida humana, nós precisamos retornar para a natureza aquilo que nós subtraímos dela. Não vamos conseguir devolver tudo, mas precisamos retomar a qualidade. Como amante da natureza, tenho o hobby de pescar e ando muito pela região da Amazônia, onde vejo a necessidade de uma inovação estrutural dos extrativistas, eles não podem deixar de existir, pois compõem um quadro que anda em desequilíbrio. Os ambientalistas são muito extremos em preservar apenas uma espécie ou outra, se não houver interação não tem jeito, e para isso precisamos das pessoas da terra, que conhecem toda essa linguagem.
A produção sustentável contempla, sem sobreposição, as prioridades econômicas, a preservação dos recursos naturais e a inclusão social. Segundo o Ministério Público Federal, a produção de carne é responsável por 50% do trabalho escravo no país. Além disso, só no Estado do Pará, em 2009, foram desmatados 157 mil hectares, principalmente para produção de carne. É possível produzir carne de boa qualidade e remunerar bem os funcionários das fazendas, sem a necessidade de mais desmatamento?
Sim, só uma correção, a abertura do Pará teve a pecuária como consequência, a madeira nobre é o maior atrativo. Isso eu posso afirmar, ninguém paga a abertura de uma floresta sem ser pra aproveitar a madeira, e depois não há muito que ser feito, a não ser transformar a área em pasto, e então a bovinocultura fica sendo a vilã, mas não precisamos de mais desmatamento. Quanto ao trabalho escravo, nos frigoríficos, o salário tem muito que melhorar, mas não vejo trabalho escravo, já dentro das fazendas a cultura ainda é de má remuneração, mas assim como na indústria, a pecuária necessita de qualificação por parte dos funcionários, para que não haja exploração.
O que pensa sobre a de produção de carne orgânica e sobre o mercado para esses produtos? Eles são muito caros!
Eu moro em uma comunidade em Botucatu que é tida como orgânica, então eu conheço um pouco o público que opta por consumir produtos orgânicos. Acredito nos projetos e que há um mercado muito particular, mas não creio que possa ser mais barato produzi-los. Infelizmente os orgânicos trazem consigo a consequência de serem seletivos, quem tem maior poder aquisitivo pode comer melhor.
Considera que os zootecnistas formados em Dracena estão preparados para atender as demandas de produção animal com sustentabilidade? Por quê?
Sem dúvida, se há um lugar capaz de formar pessoas com novas ideias, que saberão balancear sustentabilidade e produção animal, esse lugar é Dracena. Porque aqui os universitários têm o privilégio de ter um ensino direcionado totalmente à zootecnia.
Desde a sua chegada em Dracena (2005), o curso de Zootecnia e o campus de Dracena cresceram bastante. Quais foram as maiores dificuldades?
A maior foi entrar com o espírito da zootecnia em um lugar onde não se falava de zootecnia, além do fato de termos começado trabalhando com um número restrito de professores e de servidores. A própria reitoria não acreditava plenamente no campus de Dracena, o que hoje mudou completamente.
Quais são as suas metas para o campus de Dracena nos próximos anos?
As principais são consolidar os setores zootécnicos, implantar um novo curso no tema das ciências agrárias, focando na engenharia agronômica como principal objetivo e fazer esse link entre a Zootecnia e a Agronomia.














