Conhecido na corporação como o “binômio homem e cão”, esse elo se torna ainda mais evidente na trajetória da cadela Kira e do cabo José Roberto Vesco, do Canil do 8° Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), em Presidente Prudente (SP). Consagrada em campeonatos de cães de serviço no Brasil, a dupla embarcou para os Estados Unidos para representar o país no K9 Olympics 2026.
O evento começou neste domingo com o credenciamento dos competidores e segue até a próxima sexta-feira (21), nas instalações da Vohne Liche Kennels, em Denver, no estado de Indiana. A competição é uma das maiores em nível técnico no mundo voltadas a cães de trabalho.
“É um evento que reúne o cão e seu condutor em uma série de desafios que procuram reproduzir situações de elevada exigência operacional”, explicou ao g1 o comandante do Canil em Prudente, subtenente Joel Godoi de Bueno Junior.
A vaga no mundial não surgiu por acaso. A presença nas “Olimpíadas Caninas” é resultado de uma trajetória construída ao longo dos últimos anos com treinamento rigoroso. O passe para os EUA foi garantido após os excelentes resultados obtidos pela dupla no Sul-Americano de Cães de Trabalho.
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Cabo José Roberto Vesco e cadela Kira estão nos EUA para campeonato mundial — Foto: Cedida/8º Baep
Sintonia e preparo
A preparação para uma competição desse nível é contínua e exige mais do que apenas excelência técnica. Não basta ter um cão excelente ou um policial muito experiente.
“É preciso que os dois funcionem como uma equipe. O Vesco precisa interpretar a Kira, saber quando exigir, quando esperar e como conduzi-la. E a Kira precisa confiar plenamente no seu condutor. É essa sintonia que transforma dois indivíduos em um verdadeiro binômio operacional”, destaca o comandante.
Apesar da exigência esportiva, a base dos treinos é a mesma do dia a dia nas ruas.
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Cabo Vesco, da PM de SP, e a K9 Kira embarcaram para os EUA na terça-feira (11) — Foto: Cedidas/8ºBaep
“No trabalho policial, nosso foco é a missão e a segurança da população. Na competição, existe a necessidade de executar cada tarefa com precisão e rapidez dentro dos critérios dos avaliadores. Uma coisa complementa a outra”, afirma o subtenente.
Além do rigor tático, o militar reforça que o sucesso da dupla é fruto de uma construção coletiva.
“Não existe resultado individual em um Canil. Quando um binômio vence, existe toda uma equipe por trás: policiais que treinam, cuidam dos cães, auxiliam nos exercícios e mantêm a estrutura. Por isso, essa participação é uma conquista de todo o 8º Baep.”
A viagem
Atravessar o oceano com uma cadela de trabalho exigiu um intenso planejamento e uma verdadeira mobilização de bastidores. Viabilizar a ida da equipe demandou a superação de vários desafios que envolveram passagens, documentação internacional, exames veterinários rigorosos e adaptação do animal.
A viabilização da viagem contou com o empenho direto da equipe, o respaldo do Comando da corporação e o apoio essencial de apoiadores que acreditaram no potencial do binômio prudentino e ajudaram a tornar a missão possível.
A equipe embarcou para os EUA na última terça-feira (11) para garantir tempo hábil de adaptação ao novo ambiente antes das provas.
“A Kira está sendo observada principalmente em relação à alimentação, descanso e disposição. Uma mudança de país, clima e rotina representa estímulos diferentes para o cão. O mais importante é manter a tranquilidade e a confiança construídas nos treinos”, pontua Bueno Junior.
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Dupla embarcou para os EUA na terça-feira (11) — Foto: Cedida/8º Baep
Farejadora de elite e ‘cãoterapeuta’
Da raça pastor-belga malinois, Kira chegou ao 8º Baep ainda filhote. Ela reúne características fundamentais para o serviço policial: concentração, capacidade de aprendizado, resistência e uma forte conexão com o condutor.
“Mas existe algo que não aparece em uma ficha técnica, que é a vontade de trabalhar”, relata o subtenente.
Além do faro afiado contra o crime, a cadela é conhecida por sua doçura em ações sociais. Ela visita quinzenalmente o Hospital de Esperança (Hospital do Câncer), em Presidente Prudente, onde leva carinho a pacientes em tratamento no projeto de cãoterapia.
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Kira espalha afeto a pacientes com câncer pelos espaços do Hospital de Esperança — Foto: Stephanie Fonseca/g1
Desafios surpresa e mais de 30 provas
O K9 Olympics reúne mais de 30 desafios operacionais envolvendo detecção de narcóticos e explosivos, patrulhamento, controle e capacidade de resposta. As provas ocorrem em diferentes cenários, horários e condições de iluminação.
A competição também conta com a participação do Canil Caraíbas, de Goiânia (GO), e do Canil Cãofiança, de Florianópolis (SC), demonstrando a força da cinofilia brasileira.
Um dos maiores desafios da prova é o elemento surpresa: os horários e detalhes de cada bateria só são revelados no local.
“O grande desafio é justamente não saber o que será encontrado. A competição retira a equipe da zona de conforto. Fazer com que o cão mantenha a mesma qualidade de trabalho, independentemente do ambiente, é a nossa maior missão”, comenta o comandante.
As provas principais ocorrem entre segunda e quinta-feira. Na sexta-feira (21), acontecem as disputas especiais de cão de ataque e velocidade (Hard Dog/Fast Dog), seguidas pela cerimônia de encerramento e premiação.
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Cadela Kira é destaque em detecção na Polícia Militar e ações sociais em Presidente Prudente (SP) — Foto: Cedida/8º Baep
O verdadeiro legado
Para o comando do Canil, o resultado numérico na tabela é apenas uma parte da missão. O maior ganho será o conhecimento adquirido e trazido de volta para a Polícia Militar de São Paulo.
O cabo Vesco, que soma 24 anos de Polícia Militar e é especialista em cinotecnia, ajudou a estruturar o Canil do 8º Baep desde a sua fundação.
“O Vesco e a Kira já são vencedores no momento em que conquistaram a oportunidade de representar o Brasil. Eles vão competir por uma colocação, mas também vão observar, aprender e absorver experiências”, afirma o subtenente Junior.
O comandante faz questão de pontuar o reconhecimento a todos que tornaram o projeto viável.
“É preciso reconhecer o empenho do Comando e de todos os parceiros que acreditaram no potencial da nossa equipe e viabilizaram as condições econômicas e estruturais para que pudéssemos estar aqui”.
“Se vier uma medalha ou um troféu, será motivo de muito orgulho. Mas, independentemente da classificação, o verdadeiro legado não será apenas o resultado de uma prova. Será aquilo que eles aprenderem nos EUA e conseguirem transformar em conhecimento para toda a nossa equipe”, ressalta.















