O torcedor do São Paulo não deveria se iludir com os desdobramentos da vitória sobre a Ponte Preta por 1 a 0, na noite de quinta-feira, no Morumbi. Aquilo que é encarado pelos mais otimistas como o início de uma arrancada para longe do rebaixamento pode esconder dificuldades ainda maiores. Principalmente porque há no assunto uma enorme carga emocional, com a volta do técnico Muricy Ramalho ao clube. Após a partida, ele elogiou o empenho dos jogadores, mas ao longo de 40 minutos de entrevista listou pelo menos oito problemas fundamentais da equipe.

​Paulo Autuori, que foi um técnico tão vitorioso quanto Muricy no São Paulo, foi demitido recentemente por não conseguir resolver muitos desses problemas. A equipe ainda ocupa a zona de rebaixamento: aparece na 18ª colocação, com 21 pontos ganhos, dois a menos em relação ao Fluminense, 16º colocado e primeiro time fora da zona da degola. São seis pontos a mais do que a Ponte Preta, adversário que chegou a dar sufoco no São Paulo e que não permitiu vitória tricolor maior do que 1 a 0. “Tem muita coisa para ajeitar ainda. Não pode se entusiasmar tanto”, afirmou Muricy.
Ansiedade – “O que eu senti é que o time está muito ansioso. A gente percebe isso”, disse Muricy Ramalho. Esse é um fator que complica muitos dos problemas são-paulinos: os jogadores estão pressionados e querem mostrar serviço, mas não têm a tranquilidade necessária. Os efeitos podem aparecer desde o momento da conclusão de uma jogada até falta de atenção com a marcação.
Organização – Muricy já cobrou o time por isso no intervalo da partida no Morumbi: problemas de posicionamento fizeram com que a Ponte Preta conseguisse embaralhar a marcação. “Tem hora que a equipe se desorganiza, corre tudo errado. É a ansiedade. Vamos ter que ajeitar muito isso”, disse o treinador. Ele espera evolução imediata neste quesito, principalmente para a partida contra o Vasco, fora de casa, no domingo. “Vamos buscar o resultado. Claro que mais organizados. Nosso time peca um pouco nisso”, afirmou.
Preparação física – Trata-se de um fator que está fora do alcance de Muricy e da comissão técnica – inclusive dos preparadores físicos. Por conta de partidas internacionais realizadas em agosto, o time ficou com jogos atrasados no Campeonato Brasileiro. Isso culminou em uma maratona de quatro partidas em oito dias, de 1º a 8 de setembro, que até o sindicato dos atletas tentou impedir, sem sucesso. No último jogo, o time perdeu por 2 a 0 para o Coritiba, e Paulo Autuori foi demitido. “No último jogo faltou fôlego porque o time sentiu muito fisicamente. O jogo contra o Coritiba não foi parâmetro”, afirmou Muricy, que viu seus atletas mais descansados contra a Ponte Preta. “O descanso favoreceu também. O time teve forças para criar o volume de jogo.”
Morumbi – O São Paulo contou com apoio maciço da torcida para vencer a Ponte Preta no Morumbi, e esse é um cenário que precisa ser repetido daqui para frente, na opinião de Muricy Ramalho. “Temos que fazer do Morumbi a nossa casa novamente. Antigamente, era muito difícil um time de fora vencer aqui. De tempos para cá, nós temos dificuldade para vencer”, analisou. No Brasileiro, são apenas dois triunfos em casa, com um empate e seis derrotas. “Temos que fazer do Morumbi outra vez um caldeirão como sempre foi”.
Disciplina
O São Paulo fechou o 1º turno como o time mais indisciplinado do Brasileiro, com sete cartões vermelhos – Edson Silva, Denilson, Clemente Rodríguez, Luis Fabiano, Wellington, Antônio Carlos e Osvaldo foram expulsos. Contra a Ponte Preta, Denílson recebeu mais uma vez o vermelho. “O time tem problemas de levar cartão que a gente percebe. Toma cartão demais, e hoje (quinta-feira) tomou mais um. Conversei com eles em relação a isso. Mas isso é tudo questão de ansiedade, de chegar atrasado nas bolas”, disse Muricy.
Marcação – O São Paulo jogou no esquema 3-5-2 contra a Ponte Preta por necessidade, de acordo com as peças do elenco à disposição de Muricy. Mesmo nesta formação com maior proteção defensiva, o técnico reclamou das falhas de marcação. Citou alguns jogadores com dificuldades, principalmente os alas Mateus Caramelo e Reinaldo. “Temos que cuidar das costas dos alas. Por isso adotamos esse tipo de cobertura”, explicou. Para as próximas rodadas, terá de trabalhar esse aspecto de novo, já que provavelmente não voltará a usar o esquema com três zagueiros.
Reuniões e discursos- Com o lema “aqui é trabalho”, Muricy admite que não é o tipo de treinador que se atém muito aos poderes do discurso. O treinador mostrou isso ao falar sobre as conversas que os jogadores têm feito entre si para buscar a recuperação. “Chega de reunião. Não dá para ficar fazendo reunião porque é muita muleta que você dá. Tem que ganhar. Ganhar hoje para acordar feliz amanhã”, apontou.
​Postura em campo – Se boa parte desses problemas forem resolvidos por Muricy Ramalho, é possível que a postura em campo mude até chegar ao formato que o treinador espera. “Time grande tem que controlar o jogo”, resumiu. “Não pode ter o controle só de vez em quando. Isso você consegue com os jogadores de mais qualidade, e eu vou tentar juntar eles. É o que falta. Você não pode oscilar tanto em uma partida como foi hoje (quinta-feira)”, complementou o técnico.