O Brasil é o País do futebol. Mas, mesmo que o esporte seja tratado como paixão nacional, o espaço garantido para as mulheres, tanto nas arquibancadas como em campo, ainda é consideravelmente pequeno. E no ano em que os donos da camisa amarelinha – a mais badalada de todo o mundo na modalidade esportiva – irão sediar a Copa do Mundo, mulheres que têm interesse em seguir carreira no futebol feminino acabam descobrindo que, os avanços e o status para o gênero raramente são os mesmos.
Poucos sabem, mas foi só em 1979 – ano da anistia política no Brasil – que as mulheres tiveram permissão para praticar o futebol. Até então, uma legislação criada durante a ditadura de Getúlio Vargas as mantinha afastadas dos gramados. Mais de três décadas, o ingresso feminino no futebol segue lento e cheio de obstáculos e preconceitos.
Como exemplo atual de luta, Maria Luiza Gimenes, de 20 anos, natural de Tupi Paulista, que atua como goleira da Portuguesa há um ano. Na Lusa, “Malu” é suplente da goleira Andreia Suntaque, ex-Seleção Brasileira. Em breve, o time de Maria Luiza começa a temporada de jogos do Campeonato Paulista, mas quem acha que o Paulistão feminino possui o mesmo status do masculino se engana; além do futebol, a vida das atletas exige inúmeros dribles para cumprir uma rotina de múltiplas funções.
Isto porque, segundo a jogadora, é mais comum que os homens consigam seguir carreira trabalhando apenas com o futebol “em campo”, enquanto as mulheres quase que em sua totalidade precisam exercer outros trabalhos para complementar a renda, como é seu caso. “Eu treino na Portuguesa todos os dias, das 9h às 12h. Pela tarde, trabalho na Associação Paulista de Futebol e há finais de semana que sou representante de arbitragem”, conta. Vale salientar que as partidas em que Maria Luiza atua pela Portuguesa são praticamente todas aos domingos, de março até o fim do ano, com raros dias de descanso.
Atualmente, Maria Luiza mora no alojamento da Portuguesa, junto a outras 13 atletas, vindas de diversas cidades do País. Elas contam com uma cozinheira, que assim como o alojamento, também tem seus serviços pagos pelo time. Ao todo, 25 jogadoras compõem o futebol feminino da Portuguesa. Outro benefício oferecido pelo time paulista é a bolsa de estudos na Faculdade Drummond, em Sâo Paulo, onde cada atleta pode escolher o que quer cursar, com bolsa de 100%.
Ainda assim, a estrutura oferecida pela Portuguesa e vivenciada por Malu é rara; a jogadora relata que a valorização às atletas oferecida para o futebol feminino da Lusa não representa a realidade brasileira, com homens e mulheres sendo tratados de forma bastante diferente. “Hoje, temos quase 100 times de futebol feminino no Brasil; destes, apenas três ou quatro realizam o pagamento salarial correto das jogadoras e oferecem boas condições de treino como a Portuguesa”, afirma.
Malu reforça que seu técnico, Prisco Palumbo, está entre os profissionais que valorizam o futebol feminino e masculino no Brasil. “Além de ser um bom treinador, ele está sempre preocupado, buscando condições para que a gente se mantenha na cidade e nos treinos, mas pessoas como ele, infelizmente, são exceção”, complementa. Prisco Palumbo também é presidente da associação que a atleta trabalha, responsável por campeonatos paulistas que vão das categorias Sub-9 ao Sub-19, em que participam equipes como o Juventus, São Caetano e Palmeiras.
Em outras experiências de trabalho vivenciadas por Maria Luiza, o tratamento oferecido às atletas faltou com condições mínimas, como hospedagem e alimentação. “Tem times que viajam só no dia do jogo, as mulheres precisam se trocar dentro do ônibus e até a alimentação é fraca. Eu sempre digo que jogo porque não me vejo fazendo outra coisa, porque amo o futebol. Mas tenho clareza que é uma vida muito complicada, o retorno é demorado e muitas vezes, não vem”, diz.
Maria Luiza relembra, ainda, a carência no apoio à categoria de base. “Tem muitas meninas que jogam bem, mas são talentos que ficam perdidos, não recebem incentivo, porque é sempre o masculino que é ressaltado”, comenta. Maior divulgação da imprensa também é algo considerado fator fundamental para o avanço do futebol feminino no País. “Na prática, somos o país do futebol e que tem a maior jogadora dos últimos tempos [Marta, eleita oito vezes melhor do mundo], mas não existe quase nada de divulgação sobre o futebol feminino, só mesmo quando é algo referente à seleção brasileira.”
Para a goleira, para melhorar o cenário do futebol feminino brasileiro é necessário que haja mudanças na coordenação nacional. “Seria excelente se mulheres que já jogaram futebol no Brasil começassem a administrar o esporte, porque seriam pessoas que conhecem a realidade que vivemos e sabem que o dinheiro entra, mas falta saber gerenciá-lo”, complementa a goleira. (Com informações do blog Futebol e Cultura, projeto do Goethe-Institut Brasilien)














